O jornalismo interpretativo nos jornais semanários e os seus riscos para a qualidade da informação

Por Ernesto Nhanale

Devido às suas características, os jornais semanários têm sido caracterizados por textos do género reportagem interpretativa[1]. Este estilo de reportagem, que se verifica nas últimas décadas em muitos jornais do mundo, vem substituir o estilo descritivo no qual o trabalho principal do jornalista é relatar os acontecimentos, separando os das opiniões individuais.
Contrariamente ao estilo descritivo, no qual os repórteres procuram dar um maior espaço para que os actores das “estórias” para expressarem as suas ideias, deixando que as suas interpretações aos factos sejam feitos em espaços apropriados e claramente identificados, os artigos de opinião; no estilo interpretativo, os factos e as opiniões são misturadas, através das interpretações que os jornalistas procuram dar aos acontecimentos.

De uma forma analítica entre os dois estilos, Patterson (1997) assinala que, em muitos casos, a cobertura interpretativa é feita a partir de um processo de simplificação dos temas, agrupando vários acontecimentos e eventos de campanha dos candidatos, num quadro de enquadramentos interpretativo que os jornalistas procuram dar sobre o sucesso ou não da campanha dos candidatos[2].

Por vários factores, o estilo interpretativo configura-se como o mais predominante nas reportagens que analisamos nas edições dos jornais semanários (Savana, Domingo, Zambeze e Magazine Independente). Uma das consequências deste estilo é que o jornalista é, para além de repórter, um actor que, através das suas interpretações, procura fornecer significados aos acontecimentos que narra. E como qualquer interpretação ou opinião, há uma imensa tendência de uma cobertura não objectiva[3].
Existem diversos casos nas principais reportagens que fazem as manchetes dos jornais semanários onde os jornalistas procuram, a partir de suas próprias interpretações ou enquadramentos dar uma determinada forma a campanha dos candidatos. Podemos seguir alguns desses exemplos, nos quais sublinhamos algumas expressões que consideramos relevantes:

“Verdade seja dita, os comícios realizados pelos camaradas ao longo desta primeira semana de campanha têm muita afluência de muitas pessoas de todos estratos sociais. Para cobrir toda extensão da província, a Frelimo no namoro ao eleitorado, formou 16 brigadas, constituídas principalmente, por jovens e mulheres”. In Jornal Domingo, 07/09/14.

“Supremacia da Frelimo “ABAFA” concorrentes da cidade de Maputo. Na primeira semana da corrida eleitoral, ao nível da cidade de Maputo, foi inquestionável a supremacia do partido Frelimo que pela primeira vez, tem como concorrentes directos o MDM (Movimento Democrático de Moçambique) e a Renamo”. In Jornal Domingo, 07/09/14
”… por detrás de um caloiro há sempre um grande mestre que toca batuque para encobrir a inexperiência do seu caloiro”, Jornal Zambeze, 04/08/2014.

“Fazendo o aproveitamento da recém terminado conflito político militar opondo as Forças de Defesa e Segurança e os guerrilheiros da Renamo, Daviz Simango afirmou que votar conscientemente significa confiar em partidos políticos civis comprometidas com valores da paz, justiça social, económica e desenvolvimento do pais em vários domínios. In Zambeze, 04/08/2014

“Outro aspecto que marca a presente campanha é a diferença de meios materiais entre os concorrentes. A Frelimo em algumas circunstâncias recorre ao estado“ (….)Vários quadros históricos da Frelimo estão empenhados na caça ao voto, o que segundo alguns analistas, indicia que o partido que forma o governo não está seguro do que pode acontecer a 15 de Outubro”. In Savana, 05/09/14

As interpretações feitas pelos jornalistas aos eventos ou às actividades de campanha dos candidatos tendem a produzir avaliações negativas ou positivas sobre o curso da campanha, conforme se pode verificar nas frases sublinhadas. Trata-se de um tipo de cobertura que, logo a partida, condiciona as percepções do público sobre o que é reportado. 

Um dos problemas destas práticas, como argumenta Thomas Patterson (1997), resulta do facto de o jornalista pretender substituir os políticos, transformando-se ele próprio num actor da campanha. Trata-se de uma tendência, não só do nosso jornalismo (como acima o dissemos), que possui implicações negativas na qualidade da informação produzida sobre a campanha eleitoral.
Embora seja uma amostra muito pequena (uma semana da campanha), pode-se notar uma tendência de os jornalistas, nas suas interpretações, produzirem enquadramentos favoráveis ou desfavoráveis aos candidatos, em vez de uma cobertura objectiva e mais baseada no relato dos eventos e actividades dos candidatos. Nota-se ainda, por um lado, o interesse dos jornais em produzir enquadramentos baseados na exaltação das características dos candidatos, uns em relação aos outros; por outro lado, a tentativa de criar cenários dramáticos, nos quais ilustram-se as posições de concorrência entre os candidatos.

[1] O estilo interpretativo assemelha-se às reportagens chamadas analíticas.
[2] Patterson, Thomas E. 1997. “The News Media: An Effective Political Actor?” Political Communication 14:445-455
[3] Definições mais específicas sobre a cobertura não objectiva podem ser encontradas no artigo publicado na edição passada com o título “O partidarismo na cobertura eleitoral. O caso do jornal notícias”, disponível  aqui!

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